Sereníssima(...)
E assim, aos poucos, ela se esquece dos socos, pontapés, golpes baixos que a vida lhe deu, lhe dará.
A moça – que não era Capitu, mas também têm olhos de ressaca – levanta e segue em frente.

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Pois, diante desse imenso ponto de interrogação que é o futuro de todos nós, reformulei minhas crenças: estou me dando o direito de não pensar tanto, de me cobrar menos ainda, e deixar para compreender depois. Desisti de atracar o barco e resolvi aproveitar a paisagem.

Deixa, se fosse sempre assim quente, deita aqui perto de mim. Tem dias, que tudo está em paz e agora os dias são iguais… Se fosse só sentir saudade, mas tem sempre algo mais, seja como for, é uma dor que dói no peito, pode rir agora que estou sozinho, mas não venha me roubar… Vamos brincar perto da usina, deixa pra lá a Angra é dos Reis, por que se explicar se não existe perigo… Senti teu coração perfeito batendo à toa e isso dói. Vai ver que não é nada disso, vai ver que já não sei quem sou, vai ver que nunca fui o mesmo, a culpa é toda sua e nunca foi… Mesmo se as estrelas começassem a cair, a luz queimasse tudo ao redor e fosse o fim chegando cedo, você visse o nosso corpo em chamas! Deixa, pra lá… Quando as estrelas começarem a cair, me diz, me diz pr’onde é que a gente vai fugir?

Tenho medo de já ter perdido muito tempo. Tenho medo que seja cada vez mais difícil. Tenho medo de endurecer, de me fechar, de me encarapaçar dentro de uma solidão.

Olhar pela janela e ver o sol querendo respirar. Ou ir até a praia e ser mais um na multidão tentando se afogar nas falhas tentativas de entender o mundo em seu estado mais normal. E na ilusão de um dia ter um abraço sem motivo especial. Tá vendo aquela estrela solitária ali no céu, é o espelho um reflexo de alguém que se perdeu, é a chama da esperança de um ser que se apagou, o olhar de uma criança rejeitada e sem amor (…)

Amar, afinal, é ir e vir, sempre. É deixar este buraco quando se vai e não esperar pela volta certa e cronometrada. É por isso que as pessoas me deixam, absolutamente todas. É um vício, acho, o de abandonar. Porque eu também não consigo permanecer, aceitando toda essa avalanche, toda pressão exercida sobre mim. O mundo, na verdade, é uma bola bem pesada que me diz o que ser, o que ter e o que fazer. Talvez ninguém entenda que é como não ter ar para respirar, talvez ninguém compreenda o fato de pássaros nascerem livres e terem a necessidade de voar. Aqui não é o meu lugar, eu sussurro antes de dormir. Aqui não é a minha vida, aqui não é o meu lar. Amar, afinal, é sempre ir embora sem a esperança do reencontro, e eu sinto que jamais, nunca, em hipótese alguma, aqueles que foram voltarão inteiros. Eu também estou indo. É doloroso pensar nisso, e viver uma vida que não é sua, ir à faculdade, ver televisão, ouvir música, ler e fazer tudo, mas não ter nada. Ir e vir, sempre, com a consciência de que a dor está pior e que os dias estão minimizados e esmagam, me esmagam, me apertam, me sufocam. Todos estão tão felizes, que eu quase acredito que também nasci para ser feliz e que, possivelmente, esta será mais uma frustração no futuro. Todos amam esta beleza exterior, enquanto eu só sei ver o que há dentro. Todos geralmente sorriem e eu só choro porque o abraço não é forte e a verdade é engolida sem ser percebida. Ninguém, nunca, me foi inteiro; me foi de verdade; foi meu. Eu nunca tive ninguém, nunca, nunca pude abraçar alguém e dizer “você não me escapa mais”, porque, por mais que eu queira, partidas não dependem só de mim. E é disso que todos nós somos feitos: abandonos.

Ah, Deus, me ajuda, por favor. Você não sabe quanto tempo faz que eu tento em vão, todo dia eu me esforço tentando mudar, mas alguma coisa sempre me empurra pra baixo, é verdade, não me deixe só aqui, sem amor. Não me deixe, Senhor.

Olha: foi bom demais te conhecer . Me deu uma fé, uma energia. Sei lá. Ainda não consegui aterrisar bem da viagem e tô sofrendo um pouco, mas tudo bem. Te escrevo mais, logo.

Contarei, então, meu segredo: morro de medo. Medo do futuro, do que me espera, do que será de mim e meus desejos. Todos os dias tenho um pequeno ataque cardíaco de medo. Medo de não ser como imagino, de taparem meu sol com um muro de concreto, de acordar e ver que o tempo já pegou um avião e fugiu de meu alcance num estalo de dedos. Minhas mãos tremem de medo de não ser suficiente. De tornar-me um copo meio vazio. De ser normal. Sou esfaqueada pelo medo de me perder. Me perder na rua, me perder de foco, me perder de mim após pegar a via errada. Vivo passando pelo fogo cruzado do medo, que tenta matar minha coragem e vontade de ser. Morro de medo de não ser. Não ser aceita, não ser amiga, não ser boa, não ser confiável, não ser verdadeira, não ser eu. Sou sufocada de medo. Estremeço de pensar que posso desistir de lutar e perder a batalha. Que o temor me afogue. Morro de medo de morrer. De dormir e não acordar. De deixar de sonhar. De virar minha própria prisioneira e cortar minhas asas com medo de voar. De me trancar e jogar fora a chave do meu coração. Me enforco de medo de perder a esperança. De perder o jogo, o ar, a motivação. Me atiro de medo de tornar-me outra, de não me tornar nada. De não ser a mesma com todos, de continuar sempre a mesma. De ir embora, de ficar para sempre. De viver, de morrer. De ser esquecida, de ser toda hora lembrada. De perder, de ganhar todas as vezes. De ter muito, de não ter. Tenho um AVC de medo, que todos os dias tenta paralisar minha fala e meus sentidos. A todo momento tenta paralisar meus pés e meus sonhos. Um derrame que vive tentando me deixar em coma, estando viva sem viver.

Um dia vai dar certo, ah vai. Mas antes disso vai dar tudo errado. Tudo. Você vai se decepcionar com as pessoas que mais gosta. Vai tirar notas ruins mesmo tendo passado a noite estudando. Vai brigar com a sua mãe. Vai cortar o cabelo e achar que ficou horrível. Vai ver o namorado com a sua melhor amiga. Vai perder pessoas que ama. Vai cair de cara no chão. De novo. E de novo. E quando você não tiver mais forças pra se levantar, vai aparecer alguém pra dar a mão e te levantar. É ele. Deu certo.

Mas é por isso que te peço pra ter cuidado. Qualquer besteirinha que você fala, me faz muito bem ou muito mal. Não tem meio termo.

Se você está pensando que eu estou me importando, claro que eu estou. Eu não sou feito essa gente que ama e de repente tchau, e se acabou.

Você chegou até onde está agora sozinho, você caiu, se decepcionou, chorou, sofreu porém se levantou, superou tudo, ou pelo menos tenta superar. Sorria, não deixe que ninguém tire seu sorriso. Não deixe que ninguém faça você se sentir mal, você batalhou pra chegar onde está, ainda luta pra tentar vencer suas dificuldades, seus problemas. Nunca ligue para a opinião alheia. Não deixe que a sociedade, destrua sua personalidade.Seja você mesmo, e não quem as pessoas querem que você seja. Porque você é perfeito do jeito que você é.

Eu ontem fui dormir todo encolhido, agarrando uns quatro travesseiros. Chorando bem baixinho, bem baixinho, baby. Pra nem eu nem Deus ouvir. Fazendo festinha em mim mesmo, como um neném, até dormir. Sonhei que eu caía do vigésimo andar e não morria, ganhava três milhões e meio de dólares na loteria. E você me dizia com a voz terna, cheia de malícia, que me queria pra toda vida.


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